Caro Laércio,
Acabei de ouvir o seu CD. Cara, tá massa! Sempre tive curiosidade de ouvi-lo numa versão masterizada, afinal voz como a sua , não deve ficar só de bar em bar...
Olha, as trilhas que levam alguém ao sucesso são árduas, você sabem bem disso. No entanto, não devemos nos esmorecer e deixar que o desânimo nos vença. Você é forte, competente e talentoso. Segue sua jornada pois a MPB precisa de você. Parabéns pelo seu sucesso.
Agora falando de planos, eu tô numa fase de entrega quase total às artes : escrevo, leio, ouço, observo e até me aventurei, junto com uns amigos aqui em Ipatinga, a lançar um "jornalzinho" cujo nome é LITERArte. O objetivo deste jornal, ou melhor dizendo, deste movimento cultural que iniciamos, é dar luz e espaço aos artistas que por motivos diversos vivem no anonimato, privando-nos de poder apreciar a arte que praticam.
Ipatinga é uma cidade muito usiminizada e carece de um pouco mais de arte, tanto que a própria USIMINAS estar para construir e administrar o maior, segundo a empresa, espaço cultural de Minas Gerais, composto de amplo teatro, salas de música , projeções e outras coisas mais... Isto muito me alegra, pois amante das artes que sou, me permite vislumbrar num futuro não muito distante , uma grande efervescência cultural aqui na baixada.
Você bem sabe que sou fascinado por música. Pois é , continuo o mesmo, sempre a curtir aquele pessoal que faz música , não para ganhar só dinheiro, mas sim para ganhar liberdade de expressão em forma musical . Ando ouvindo, muito mais que antes Caetano Veloso que para mim , é a maior expressão poética da MPB.
Continuando falando de música, sempre pensei em poder me embrenhar na carreira musical, mas Deus privou-me de tal talento, reservando-me apenas a condição de ser um exigente apreciador. No entanto, você também sabe, que sou meio metido a poeta e desde muito tempo ando rascunhando algumas besteirinhas que, sei não, se pintar alguém com um pouco de paciência e habilidade criativa como você tem , poderia tentar musicalizar estas minhas tais besteirinhas e, quem sabe, daria alguma coisa legal. Lembra da época dos festivais? Pô cara, que saudade! Anexo a esta, envio-lhe algumas coisas que ando escrevendo e caso você ache interessante "colocar poesia musical sobre a poesia escrita", tem o meu consentimento. Só lhe peço uma coisa, dê um jeito de me mostrar como tá ficando pois acho que devemos partir para uma coisa mais profissional e deixar de pensar pequeno. Digo-lhe isto porque pesquiso muito sobre MPB e concluí que tirando aquela turma encabeçada por Chico , Caetano, Djavan, Milton, etc. ( coisa de quase 30 anos atrás) , o que apareceu de novo é tão bom como, sem falsa modéstia, a sua música e a minha poesia. Resumindo, temos chance de colocar nossa contribuição à MPB, sem temer a ninguém, é claro que com muita honestidade e autenticidade.
Bom, vou parando por aqui esperando por uma visita sua. Afinal, sinto vontade de ouvi-lo e vê-lo pessoalmente, pois já se vão anos que não nos encontramos. É bom saber que você já realizou parte de seu sonho ao gravar um CD. É bom ver um filho de Bela Vista crescendo em terras estranhas...
Um abraço forte.
PS : Todo artista tem de ir aonde o povo está. Vá...
Vê seu moço
Caipira de avião
Interneticalizaram
a rede do peão
Balança a rede viu?!
se não o byte vai pegar
Essa coisa invadiu
E não sei como escapar
Parabolicalizaram tudo:
céu da rua e do sertão
Cantoria na varanda
deu lugar pra informação
Computadorizaram tudo:
a razão e a verdade
Computadorizaram tudo:
o sertão e a cidade
Computadorizaram tudo e
interiorizaram a urbanidade
Computadorizaram tudo e
urbanizaram a interioridade...
Estereotiparam a poesia
de um forma sem igual
poesia hoje em dia
é realidade virtual
Globalizaram tudo
religião e carnaval
Interagiram tudo
nesta loucura abissal
Computadorizaram tudo:
a cultura e o violão
Computadorizaram tudo:
o cantor e a canção
Computadorizaram tudo:
a mentira e a verdade
Computadorizaram tudo:
ilusão e realidade
Computadorizaram tudo e
interiorizaram a urbanidade
Computadorizaram tudo
e urbanizaram a interioridade
Minha mão
braço de violão
Canção, estrada
beira de rio manso
sereno na madrugada
Assovio de estrela
acorda a calma das manhãs
abrem-se as portas para o dia
Sol menino já chegou
água já ferveu
passa o café
cigarro de "paia"
fumaça pro ar
Arreie seu moço
"véio" carro-de-boi
Semente na mão, uma oração
fé no amanhã... E "vamo" plantar
Tanto que plantei
tanto que colhi
tanto que sonhei
Tanto que vivi...
E agora como estou ?
enraigado na solidão
na frieza de um mundo lógico
onde um querer ecológico
invadiu meu coração
Pobre coração de lata
onde alegria não existe
Vive sempre calado e triste
A querer nascer de novo
naquele admirável mundo novo
que meu povo arrasou...
Nem tanto impotente
nem tanto importante
Importante aqui
tem que ser importado
Reluzentemente o furo acontece
a razão dá razão pra engana(Nação)
Termina tudo em folia
E a falsa alegria
finge ser tão real
Macularam Macunaíma
Jeca Tatu ainda não sarou
Carmem Miranda não tem mais bananas
Zé Carioca se roquificou
É tanto ipsilon, dáblio e kA
que nem sei como falar
Isto é América latina
ou reflexo da dominação ?
Chora o poeta
no deslumbre da manhã
Sol mal acordado
doira o lume dos teus olhos
Olhos tão tristonhos
que se perdem na paisagem
e se lançam numa viajem
que só os poetas sabem ter
Pedaços de saudades
que se esmeram em doer
Razões irracionais
que até os animais
não ousam entender
Loucuras de poeta
não tem palavra certa
E este amor tão complicado
tão certo e tão errado
Desperta este poeta
na inocência da manhã...
Não sou dono. Tomo conta.
Não sou pai. Sou referência.
Não sou filho. Sou produto.
Não sou. Estou.
Não tenho. Alugo.
Não choro. Me calo.
Não sorrio. Riem de mim...
Não sofro. Me agüento.
Não rezo. Espero.
Não faço. Obedeço.
Não crio. Recrio.
Não durmo. Adormeço
Não quero. Basta-me sonhar
Não vejo. Me mostram
Não penso. Dispenso.
Não falo. Ouço.
Não vou. Já estou de volta.
Não grito. Silencio.
Não dou opiniões. Observo.
Não tenho amigos. Brinco com letras.
Não tenho motivos. Faço poesias.
Não tenho razão. Tenho coração.
Não tenho dinheiro. Tenho inspiração.
Não construo. Imagino.
Não canto. Caetaneio.
Não escrevo. Sinto.
Não minto. Invento.
Não sou nada. Sou eu.
Não tento. Desisto.
Não vivo.
Existo...
Não sou produto do meio
talvez eu seja das beiradas
não sou rosa de vitrines
nem buquê de namorada
É estranho filosofar
sem ao menos ser letrado
é estranho este cantar
além de mudo, desafinado
Muito pouco me importa
se minha voz não me traduz
se meus versos não se expliquem
desta forma assim tão nus
Não tem terceiro tempo
já cheguei até o início
é difícil este correr...
e morrer em plena estrada
Ser, não me importa
Ter, não me traduz
Poder, não é dinheiro
Viver, não aprendi
Arrasa, arrasa tudo arrasa
acaba esta tão terrível dor
Nasça outro eu modificado
que não sofra tanto
quanto um homem sem amor
Não pinto mais minha cara
não quero ter cara de bobo
Pintei a cara e não pintou nada
Basta!
Não quero mais
ser fantoche social
Pensei que fosse solução
ao menos revolução
fomos usados, enganados
hoje somos também culpados
por este buraco mal furado
que chamamos de Brasil...
Folha ressequida , reflexo pálido
de uma cálida estação
Aceite os meus tontos passos
muito assim sem direção
Varre vento
este verão mal terminado
este poeta encantado
que o abandono encontrou
Folha ressequida
não me toques assim
Já sorvi mil venenos
e não quero outro fim
Se morrer for meu preço
o outono me guiará...
folha ressequida
te quero tanto
pra meu pranto abraçar
Barranco de terra vermelha
brota mato de cortar
Gente é que nem barranco
é tanto mato pra desbravar
Torrão solto ao sol
terra ferida sem sangrar
Gente também tem ferida
como terra de trabalhar
Facão reluz no mato
capim se contorce de dor
gente sente muita dor
e o facão sempre a cortar
Água de lavadeira
na cacimba a lavar
Gente também se lava
das sujeiras dos "coronéis"...
Lápis da tia na escola
escreveu um tal poema
Gente quer escrever
coisas que inventar
Gente quer escrever
Gente quer se educar
Embora muita gente não queira
que gente saiba falar...
Tanta terra pra boi viver
e capim pra sustentar
Gente não é boi não ( nem capim )
mas gente quer terra sim...
Gente quer terra sim.
Um velho tragando sua solidão
filosofa sem saber
É a vida um cruzamento
onde ninguém tem preferência
E a ciência é uma reticência
ao competir com o Criador ...
A roda inventou o carro
e do barro eu nunca vim
A lua inventou a poesia
e a poesia me deixou assim :
Envelhecido pelos anos dos homens
e remoçado pelos anos de Deus...
Leva fumaça leva
tudo o que não devia vir
Leva fumaça leva
e deixa este velho poeta aqui...