A ponto de
partir, já sei
que nossos olhos
sorriam para sempre
na distância.
Parece pouco?
Chão de sal grosso, e ouro que se racha.
A ponto de partir, já sei que nossos olhos sorriem na distância.
Lentes escuríssimas sob os pilotis.


Um Beijo

que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor


Lá onde cruzo com a modernidade, e meu pensamento passa como
um raio, a pedra no caminho é o time que você tira de campo.


Como terei orgulho do ridículo de passar bilhetes pela porta.
Esta mesma porta hoje fecho com cuidado; altivo.
Como não repetirei, a teus pés, que o profissional esconde no
índice onomástico os ladrões de quem roubei versos de amor com
que te cerco.
Te cerco tanto que é impossível fazer blitz e flagrar a
ladroagem.


Parece que há uma saída exatamente aqui onde eu pensava que
todos os caminhos terminavam. Uma saída de vida. Em pequenos
passos, apesar da batucada. Parece querer deixar rastros. Oh yea
parece deixar. Agora que você chegou não preciso mais me roubar. E
como farei com os versos que escrevi?


Estou vivendo de hora em hora, com muito temor.
Um dia me safarei - aos poucos me safarei, começarei um safari.


Aqui meus crimes não seriam de amor.


É para você que escrevo, hipócrita. Para você - sou eu que te sacudo
os ombros e grito verdades nos ouvidos, no último momento. Me
jogo aos teus pés inteiramente grata: bofetada de estalo, decolagem
lancineante, baque de fuzil. É só para você e que letra tán hermosa -
Exaltação - Império Sentido na Avenida - Carnaval da síncope.
Pratos limpos atirados para o ar. Circo instantâneo, pano rápido mas
exato descendo sobre a sua cabeleira de um só golpe de carícia, e o
teu espanto!


sou uma mulher do século XIX
disfarçada em século XX


Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos.


saberias então que hoje, nesta noite, diante desta gente,
não há ninguém que me interesse e meus versos
são apenas para exatamente esta pessoa que deixou de vir
ou chegou tarde, sorrateira, de forma que não posso,
gritar ao microfone com os olhos presos nos seus olhos
baixos, porque não te localizo e as luzes da ribalta
confundem a visão, te arranco, te arranco do papel,
materializo minha morte, chego tão perto que chego
a desaparecer-me, indecência, qualquer coisa de
excessivamente
oferecida, oferecida, me pasmo de falar para quem
falo, com que alacridade
sento aqui neste banco dos réus, raso,
e procuro uma vez mais ouvir-te respirando
no silêncio que se faz agora
minutos e minutos de silêncio, já.


Agora, imediatamente, é aqui que começa o primeiro sinal do
peso do corpo que sobe. Aqui troco de mão e começo a oredenar o
caos.