Samba Canção

Tantos poemas que perdi,
Tantos que ouvi, de graça
pelo telefone - taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhado na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz...


O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, oh, tão presa! Esses mosquitos
que não largam! Minhas saudades ensurdecidas
por cigarras! O que faço aqui no campo
declamando aos metros versos longos e sentidos?
Ah que estou sentida e portuguesa, e agora não
sou mais, veja, não sou mais severa e ríspida:
agora sou profissional.


Mocidade Independente

Pela primeira vez infrigi a regra de ouro e voei
pra cima sem medir mais as conseqüências. Por
que recusamos ser proféticas? E que dialeto é
esse para a pequena audiência de serão? Voei pra
cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos
ares, sem uma graça atravessando o Estado de
São Paulo, de madrugada, por você, e furiosa: é
agora, nesta contramão.


Atrás dos Olhos das Meninas Sérias

Mas poderei dizer-vos que elas ousam? Ou vão,
por injunções muito mais sérias, lustrar pecados
que jamais repousam?


ela quis
queria me matar
quererá ainda, querida?